A amazônia é feita de quadrinhos
Até onde queremos ir?
O Circuito Amazônico de Quadrinhos está apenas em sua segunda edição. A ideia surgiu a partir das discussões entre os organizadores Evaldo Vasconcelos, de Manaus e Andrei Miralha, de Belém, e foi colocada em prática de forma coletiva.
O Circuito se define como uma “iniciativa que liga eventos de quadrinhos de vários estados da Amazônia”. A principal trincheira é a comunicação. Criar uma unidade estética para as redes sociais e ter uma atuação profissional na divulgação dos eventos.
As duas primeiras edições mostraram que a ideia deu certo. O projeto acaba de vencer a 42ª edição do Troféu Angelo Agostini com o Prêmio Jayme Cortez.
Alguns dos eventos que participam do Circuito já estavam estabelecidos regionalmente. A Semana do Quadrinho Nacional Manaus é realizada desde 2019 pelo produtor cultural Evaldo Vasconcelos e faz parte das primeiras ações que criaram o atual movimento nortista em torno da produção de quadrinhos.
A Semana do Quadrinho Nacional Pará ocorre desde 2015, fruto de um cenário em constante movimento e que continua a incentivar a produção local.
Ao mesmo tempo, novas iniciativas surgiram, embaladas pela criação do próprio Circuito e da movimentação em toda a região. É o caso da recém-criada Feira Parintins Encantada, realizada pela primeira vez este ano na ilha conhecida por um dos maiores festivais culturais do Brasil.
O tamanho do Circuito impressiona. São cinco estados, sete eventos com participação ainda do território amazônico além da fronteira, em Maripasoula, na Guiana Francesa.
O seu impacto também é notável. Embora ainda não existam pesquisas direcionadas à produção de eventos na região, já há dados empíricos que mostram como a organização dos eventos tem repercutido nos cenários regionais.
A criação ou fortalecimento de coletivos, um crescimento no intercâmbio com artistas de outras regiões, aumento nas vendas em feiras e o sucesso de público e participação de artistas são exemplos disso.
O Circuito se apresenta como uma alternativa ao movimento de artistas que se sentem obrigados a ir em eventos no Sudeste para escoar sua produção e se integrar ao cenário.
Embora a atuação do Circuito mereça os créditos pela visibilidade que tem alcançado, os eventos e todos os envolvidos em sua produção também precisam ter o devido reconhecimento.
A tarefa de produzir eventos de nicho, com pouca ou nenhuma verba estatal ou apoio privado é árdua. Para algumas feiras, como já foi citado, isso é feito há anos.
Talvez esteja aí o segredo do sucesso do Circuito. Mostrar para o público local e para o cenário nacional, como temos excelentes eventos com potencial de crescimento. Feiras que participam de um ecossistema local, que respeitam seus artistas e que buscam sua valorização.
O Circuito mostrou que nós, nortistas, precisamos valorizar esse ecossistema e fortalecê-lo.
Até onde queremos ir? Foi assim que comecei o texto. Como de costume, vou terminar sem uma resposta pronta, mas em construção.
Se temos um conjunto de eventos em ascensão, queremos um grande festival amazônico de histórias em quadrinhos. Queremos uma bienal. Queremos que artistas nortistas vendam tão bem em sua cidade quanto os artistas de fora o fazem. Queremos que editoras participem, enviem seus editores para avaliação de projetos.
Queremos muito mais.
E o Circuito Amazônico de Quadrinhos nos mostrou que é possível.