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A amazônia é feita de quadrinhos

Até onde queremos ir?

O Circuito Amazônico de Quadrinhos está apenas em sua segunda edição. A ideia surgiu a partir das discussões entre os organizadores Evaldo Vasconcelos, de Manaus e Andrei Miralha, de Belém, e foi colocada em prática de forma coletiva.

O Circuito se define como uma “iniciativa que liga eventos de quadrinhos de vários estados da Amazônia”. A principal trincheira é a comunicação. Criar uma unidade estética para as redes sociais e ter uma atuação profissional na divulgação dos eventos.

As duas primeiras edições mostraram que a ideia deu certo. O projeto acaba de vencer a 42ª edição do Troféu Angelo Agostini com o Prêmio Jayme Cortez.

Alguns dos eventos que participam do Circuito já estavam estabelecidos regionalmente. A Semana do Quadrinho Nacional Manaus é realizada desde 2019 pelo produtor cultural Evaldo Vasconcelos e faz parte das primeiras ações que criaram o atual movimento nortista em torno da produção de quadrinhos.

A Semana do Quadrinho Nacional Pará ocorre desde 2015, fruto de um cenário em constante movimento e que continua a incentivar a produção local.

Ao mesmo tempo, novas iniciativas surgiram, embaladas pela criação do próprio Circuito e da movimentação em toda a região. É o caso da recém-criada Feira Parintins Encantada, realizada pela primeira vez este ano na ilha conhecida por um dos maiores festivais culturais do Brasil.

O tamanho do Circuito impressiona. São cinco estados, sete eventos com participação ainda do território amazônico além da fronteira, em Maripasoula, na Guiana Francesa.

Sidney Gusman com participantes da Feira Teiú, em Palmas (divulgação)

O seu impacto também é notável. Embora ainda não existam pesquisas direcionadas à produção de eventos na região, já há dados empíricos que mostram como a organização dos eventos tem repercutido nos cenários regionais.

A criação ou fortalecimento de coletivos, um crescimento no intercâmbio com artistas de outras regiões, aumento nas vendas em feiras e o sucesso de público e participação de artistas são exemplos disso.

O Circuito se apresenta como uma alternativa ao movimento de artistas que se sentem obrigados a ir em eventos no Sudeste para escoar sua produção e se integrar ao cenário.

Artistas durante a Semana do Quadrinho Nacional Manaus (divulgação)

Embora a atuação do Circuito mereça os créditos pela visibilidade que tem alcançado, os eventos e todos os envolvidos em sua produção também precisam ter o devido reconhecimento.

A tarefa de produzir eventos de nicho, com pouca ou nenhuma verba estatal ou apoio privado é árdua. Para algumas feiras, como já foi citado, isso é feito há anos.

Talvez esteja aí o segredo do sucesso do Circuito. Mostrar para o público local e para o cenário nacional, como temos excelentes eventos com potencial de crescimento. Feiras que participam de um ecossistema local, que respeitam seus artistas e que buscam sua valorização.

O Circuito mostrou que nós, nortistas, precisamos valorizar esse ecossistema e fortalecê-lo.

Até onde queremos ir? Foi assim que comecei o texto. Como de costume, vou terminar sem uma resposta pronta, mas em construção.

Se temos um conjunto de eventos em ascensão, queremos um grande festival amazônico de histórias em quadrinhos. Queremos uma bienal. Queremos que artistas nortistas vendam tão bem em sua cidade quanto os artistas de fora o fazem. Queremos que editoras participem, enviem seus editores para avaliação de projetos.

Queremos muito mais.

E o Circuito Amazônico de Quadrinhos nos mostrou que é possível.

Artista amazonense assina vinheta da Copa do Mundo na Globo

Artista Amazonense Laura Athayde assina vinheta especial da Copa do Mundo na TV Globo

Os intervalos comerciais da TV Globo ganharam o traço, as cores e a identidade da região Norte durante a cobertura da Copa do Mundo. A artista, ilustradora e quadrinista amazonense Laura Athayde é a responsável pela criação de uma das novas vinhetas especiais do famoso “plim-plim”, exibidas nacionalmente nos blocos de transição dos jogos da Seleção Brasileira.

A ilustração, desenvolvida originalmente por Athayde, passou por um processo de animação para ganhar as telas. A proposta conceitual da obra é retratar com fidelidade e orgulho o jeito tipicamente nortista de torcer, celebrar e vivenciar o maior evento de futebol do planeta, levando as particularidades culturais da Amazônia para milhões de telespectadores em todo o país.

 

A iniciativa da emissora faz parte de uma série de interações artísticas que convidam criadores de diferentes regiões para imprimir suas visões locais sobre a identidade nacional. 

A participação de Laura Athayde na principal janela de audiência da televisão brasileira coroa um momento de forte consolidação de sua carreira e, simultaneamente, serve como vitrine para a potência das artes visuais e dos quadrinhos produzidos no Amazonas. Reconhecida por suas narrativas sensíveis e traço marcante, a autora agora expande seu alcance ao conectar a estética regional com o grande público da TV aberta.

 

Assim que chegou o convite, eu soube que queria representar uma das minhas memórias mais queridas, que era esse costume de enfeitar a rua para a Copa. Eu fui criada na casa da minha avó, no Centro, e durante a minha infância isso era muito forte. Então, eu comecei a pesquisar sobre essa tradição e acabei conhecendo um pouco mais também sobre as celebrações no interior da Amazônia, em que as famílias e amigos se reúnem de barco para assistir os jogos juntos.“, conta Laura. 

Para o cenário local, esse destaque reforça a efervescência de uma geração de quadrinistas e ilustradores amazonenses que têm quebrado as barreiras do isolamento geográfico, alcançando postos de destaque em grandes mídias, agências e no mercado editorial de prestígio nacional.

A vinheta completa pode ser assistida no perfil do instagram da artista.

Projeto Quadrinhos Sateré retoma atividades e prepara coletânea

Projeto Quadrinhos Sateré retoma atividades em junho para finalizar histórias e lançar coletânea inédita

O Projeto Quadrinhos Sateré, primeiro curso de roteiro de quadrinhos exclusivo para crianças e adolescentes indígenas do Brasil, está de volta. As atividades serão retomadas no dia 6 de junho de 2026, às 18h, na comunidade urbana Waikiru, no bairro Redenção, em Manaus. O retorno do projeto foi viabilizado pelo edital PNAB (Política Nacional Aldir Blanc) do Governo Federal e selecionado pela Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Amazonas SEC, que garantiu o financiamento para a continuidade das ações.

Na nova fase, os jovens Sateré-Mawé retomaram as aulas para finalizar as histórias iniciadas na primeira etapa do projeto, que ocorreu em 2023 com apoio da Fundação Municipal de Cultura de Manaus MANAUSCULT. O objetivo principal é produzir e publicar uma coletânea reunindo oito narrativas em quadrinhos criadas pelos próprios alunos, com previsão de lançamento para outubro de 2026.

Ao longo de dois meses e meio, os participantes — com idades entre 8 e 18 anos — terão aulas teóricas e práticas de roteiro, sempre orientadas pela equipe do projeto. As histórias serão ilustradas pela quadrinista profissional Malika Dahil, respeitando o traço e a visão de cada jovem autor.

Entre as narrativas previstas na coletânea estão lendas ancestrais, como A Criação da Noite, escrita por Israel Hukat’i (16 anos) a partir de relatos de seu avô, e histórias de empoderamento feminino e conscientização ambiental, como Moiara (Mayara Sateré, 15 anos) e Iamã e Ahiang̃ (Eliakim Cruz, 12 anos), que aborda as queimadas na Amazônia.

Estamos muito felizes em poder retomar esse trabalho. Não é apenas um curso de quadrinhos — é um resgate de memórias, de língua, de pertencimento a a realização do sonho das crianças de verem suas histórias publicadas.” — Evaldo Vasconcelos, idealizador do projeto e professor de roteiro.

O Projeto Quadrinhos Sateré nasceu de uma troca entre a pedagoga Leilane Sateré e o professor de narrativa gráfica Evaldo Vasconcelos: ele aprendeu um pouco sobre a cosmologia do povo Sateré-Mawé e, em contrapartida, ministrou aulas de quadrinhos para a comunidade. A iniciativa enfrenta uma lacuna histórica — por séculos, as histórias indígenas foram contadas exclusivamente por não-indígenas.

Quando a gente consegue trazer um projeto que fomenta a cultura indígena com a cultura não-indígena, acreditamos que estamos fazendo o nosso papel enquanto professor. Essas crianças estão mostrando quem somos, o que acreditamos e o que faz parte da nossa essência.” — Leilane Sateré.

 

Confira mais sobre o projeto no perfil deles aqui.

Circuito Amazônico de Quadrinhos vence o 42º Troféu Angelo Agostini

Circuito Amazônico de Quadrinhos vence o prestigiado prêmio nacional Jayme Cortez no 42º Troféu Angelo Agostini

Pela primeira vez na história da premiação, uma iniciativa da Região Norte que integra cinco estados da Amazônia recebe a maior honraria de fomento à cultura de HQs no Brasil. A primeira edição do Circuito Amazônico de Quadrinhos foi anunciado como o grande vencedor do Prêmio Jayme Cortez na 42ª edição do Troféu Angelo Agostini, uma das premiações mais tradicionais e longevas do universo das histórias em quadrinhos no Brasil. 

O anúncio oficial foi realizado hoje por meio de uma transmissão ao vivo que reuniu a comunidade do quadrinho nacional. A conquista consagra o Circuito Amazônico de Quadrinhos como uma iniciativa de relevância nacional na descentralização e no fortalecimento da cultura pop e editorial no país.

O Circuito Amazônico de Quadrinhos teve sua primeira edição em 2025 e é um evento itinerante colaborativo gratuito que conecta e fortalece a produção de histórias em quadrinhos do Norte do Brasil. O projeto integra grandes programações, oficinas e feiras de artistas em cinco estados da região. Em 2025, marcou presença em Manaus (AM), Belém (PA), Boa Vista (RR), Macapá (AP) e Palmas (TO). Já em 2026, a cidade de Parintins (AM) se juntou ao Circuito.

O que é o Prêmio Jayme Cortez

Diferente das categorias voltadas a lançamentos editoriais e específicos, a categoria Prêmio Jayme Cortez possui um caráter institucional e honorífico de altíssimo prestígio. Ele é destinado exclusivamente a reconhecer pessoas, obras ou instituições que tenham oferecido destaque, apoio e fomento a contribuições fundamentais para a produção, difusão e valorização do quadrinho nacional ao longo do ano.

O reconhecimento do Troféu Ângelo Agostini chancela o Circuito Amazônico de Quadrinhos não apenas como um evento regional, mas como um polo indispensável de resistência, formação de novos leitores e vitrine para os artistas do Norte do país. A premiação destaca o impacto social e cultural do Circuito, que atua diretamente na quebra de barreiras geográficas e econômicas que historicamente isolam a produção visual e literária da Amazônia dos grandes eixos editoriais do Sudeste.

A importância da colaboração regional 

A conquista reflete o esforço conjunto de uma rede de criados que decidiram transformar a realidade local. Andrei Miralha, organizador da Semana do Quadrinho Nacional do Pará e um dos idealizadores do Circuito, destaca o ineditismo da premiação: “Recebemos esse prêmio com muito orgulho e alegria, pois pela primeira vez um evento nortista recebe uma premiação como essa. O Circuito tem uma característica inédita no país por abranger cinco estados do Norte. É um evento organizado por quadrinistas para quadrinistas, com o objetivo de valorizar a produção autoral e dar visibilidade à Amazônia. Nossa intenção era colocar o Norte na rota nacional. Acho que conseguimos!”

Esse sentimento de conexão com a identidade local é compartilhado por Evaldo Vasconcelos, organizador da Semana do Quadrinho Nacional de Manaus e também idealizador do Circuito: “Esse reconhecimento é fruto do talento gigantesco dos artistas do Norte e do apoio fundamental de toda a cena de quadrinhos. Estamos mostrando para o país a Amazônia contada pelos próprios nortistas!”, celebra. 

“Mairiwara Peúa”: Exposição de Tai debate a Encantaria em Palmas

Mairiwara Peúa: Exposição de Tai debate a Encantaria em Palmas

O campus do Instituto Federal do Tocantins (IFTO), em Palmas, recebeu a exposição “Mairiwara Peúa”, da artista, ilustradora e roteirista paraense Tai. A mostra integrou a programação da Feira Teui durante a etapa tocantinense do Circuito Amazônico de Quadrinhos, realizada nos dias 24 e 25 de abril de 2026. A ação foi viabilizada por meio do projeto Cultura em Movimento, promovido pelo Sesc Tocantins.

A exposição propõe uma imersão na Encantaria Amazônica, trazendo para o centro do debate a resistência das entidades que habitam os territórios muito antes da presença humana e que existem acima dos conceitos tradicionais de bem e mal.

A narrativa visual de Tai funciona como uma lente crítica sobre o espaço urbano contemporâneo. Diante de um modelo de desenvolvimento predatório e eurocêntrico que desmata e fragmenta a biodiversidade regional, a obra demonstra como os Encantados seguem resistindo e ocupando os asfaltos, canais, igarapés e florestas das cidades amazônicas.

A série Mairiwara Peúa é uma lente que une fotografias de Mairi, nome ancestral reivindicado pelos povos indígenas que resistem na cidade de Belém, e de territórios que compõem a ancestralidade da artista, conectados pelos rios parawaras.

O diferencial técnico e conceitual da exposição esteve na mistura de linguagens. Tai utilizou fotografias de cenários urbanos e naturais de sua ancestralidade e, por meio da ilustração digital, revelou as figuras dos Encantados integradas às paisagens. A proposta estética busca mostrar o processo de apagamento colonial que, ao longo dos séculos, distanciou a percepção humana e espiritual dessas presenças que nunca deixaram de acompanhar o cotidiano da região.

 “Mairiwara Peúa” traz a capacidade de reconectar o público urbano com as raízes cosmológicas da Amazônia através da arte contemporânea. Ao dar forma visual aos seres invisibilizados pela cidade, a exposição convida o visitante a desacelerar a visão predatória para voltar a sentir e reconhecer a ancestralidade que sempre pulsou nos territórios nortistas.

3º Prêmio Mapinguari de Quadrinhos anuncia vencedores

3º Prêmio Mapinguari de Quadrinhos
anuncia vencedores

Em uma noite dedicada à celebração da identidade regional e da narrativa gráfica, foram revelados no último sábado (09/05) os vencedores da 3ª edição do Prêmio Mapinguari de Quadrinhos. A cerimônia, transmitida ao vivo pelo canal do YouTube do Norte em Quadrinhos, atingiu marcas históricas: foram mais de 120 inscrições, englobando 40 produções e a participação de cerca de 100 artistas vindos de todos os estados da Região Norte. 

A premiação deste ano contou com a identidade visual assinada pelo artista, designer e quadrinista amazonense Dylan Ranna. O mesacast de anúncio foi conduzida por Sâmela Hidalgo, idealizadora do Norte em Quadrinhos, e Luiz Andrade, produtor do prêmio, que celebraram a diversidade e a qualidade técnica das obras submetidas.

A grande vencedora da noite foi a obra “A Batalha de Itacoatiara” (Black Eye Estúdios), que conquistou o prêmio de Melhor Quadrinho, além das categorias de Melhor Desenhista (Romahs Mascarenhas) e Melhor Roteirista (Emerson Medina).

A difícil missão de selecionar os vencedores entre tantas produções de alto nível ficou a cargo de um júri de especialistas: a pesquisadora paraense Fabiana Gillet, a editora pernambucana Dandara Palankof, o editor cearense Chico Oliveira, o editor paulista Guilherme Kroll e o macapaense Gian Danton, reconhecido como Mestre do Quadrinho Nacional.

Lista Oficial de Vencedores – 3º Prêmio Mapinguari:

  • Melhor Quadrinho: A Batalha de Itacoatiara (Black Eye Estúdios), por Romahs Mascarenhas, Emerson Medina e Tiêe Santos.
  • Melhor Roteirista: Emerson Medina (A Batalha de Itacoatiara).
  • Melhor Desenhista: Romahs Mascarenhas (A Batalha de Itacoatiara).
  • Melhor Arte-finalista: Leonardo Dressant (A Batalha nas Sombras).
  • Melhor Colorista: Raquel Teixeira (Heranças).
  • Melhor Webtira ou Webquadrinho: Meio Período, de Icehito.
  • Melhor Subproduto ou Adaptação de HQ: Biblioteca de Zines.
“Alcançar todos os estados da Região Norte e mobilizar uma centena de artistas mostra que o Prêmio Mapinguari cumpre seu papel de descentralizar a produção nacional e dar voz aos criadores da Amazônia”, afirma Sâmela Hidalgo, uma das organizadoras do prêmio.
 
Criado em 2022 e organizado pelo portal Mapingua Nerd, o prêmio busca valorizar e dar visibilidade à produção de HQs no Norte do país, premiando o esforço de artistas independentes e editoras que narram as pluralidades da região. 

Blog NHQ

A amazônia é feita de quadrinhos

Até onde queremos ir?

O Circuito Amazônico de Quadrinhos está apenas em sua segunda edição. A ideia surgiu a partir das discussões entre os organizadores Evaldo Vasconcelos, de Manaus e Andrei Miralha, de Belém, e foi colocada em prática de forma coletiva.

O Circuito se define como uma “iniciativa que liga eventos de quadrinhos de vários estados da Amazônia”. A principal trincheira é a comunicação. Criar uma unidade estética para as redes sociais e ter uma atuação profissional na divulgação dos eventos.

As duas primeiras edições mostraram que a ideia deu certo. O projeto acaba de vencer a 42ª edição do Troféu Angelo Agostini com o Prêmio Jayme Cortez.

Alguns dos eventos que participam do Circuito já estavam estabelecidos regionalmente. A Semana do Quadrinho Nacional Manaus é realizada desde 2019 pelo produtor cultural Evaldo Vasconcelos e faz parte das primeiras ações que criaram o atual movimento nortista em torno da produção de quadrinhos.

A Semana do Quadrinho Nacional Pará ocorre desde 2015, fruto de um cenário em constante movimento e que continua a incentivar a produção local.

Ao mesmo tempo, novas iniciativas surgiram, embaladas pela criação do próprio Circuito e da movimentação em toda a região. É o caso da recém-criada Feira Parintins Encantada, realizada pela primeira vez este ano na ilha conhecida por um dos maiores festivais culturais do Brasil.

O tamanho do Circuito impressiona. São cinco estados, sete eventos com participação ainda do território amazônico além da fronteira, em Maripasoula, na Guiana Francesa.

Sidney Gusman com participantes da Feira Teiú, em Palmas (divulgação)

O seu impacto também é notável. Embora ainda não existam pesquisas direcionadas à produção de eventos na região, já há dados empíricos que mostram como a organização dos eventos tem repercutido nos cenários regionais.

A criação ou fortalecimento de coletivos, um crescimento no intercâmbio com artistas de outras regiões, aumento nas vendas em feiras e o sucesso de público e participação de artistas são exemplos disso.

O Circuito se apresenta como uma alternativa ao movimento de artistas que se sentem obrigados a ir em eventos no Sudeste para escoar sua produção e se integrar ao cenário.

Artistas durante a Semana do Quadrinho Nacional Manaus (divulgação)

Embora a atuação do Circuito mereça os créditos pela visibilidade que tem alcançado, os eventos e todos os envolvidos em sua produção também precisam ter o devido reconhecimento.

A tarefa de produzir eventos de nicho, com pouca ou nenhuma verba estatal ou apoio privado é árdua. Para algumas feiras, como já foi citado, isso é feito há anos.

Talvez esteja aí o segredo do sucesso do Circuito. Mostrar para o público local e para o cenário nacional, como temos excelentes eventos com potencial de crescimento. Feiras que participam de um ecossistema local, que respeitam seus artistas e que buscam sua valorização.

O Circuito mostrou que nós, nortistas, precisamos valorizar esse ecossistema e fortalecê-lo.

Até onde queremos ir? Foi assim que comecei o texto. Como de costume, vou terminar sem uma resposta pronta, mas em construção.

Se temos um conjunto de eventos em ascensão, queremos um grande festival amazônico de histórias em quadrinhos. Queremos uma bienal. Queremos que artistas nortistas vendam tão bem em sua cidade quanto os artistas de fora o fazem. Queremos que editoras participem, enviem seus editores para avaliação de projetos.

Queremos muito mais.

E o Circuito Amazônico de Quadrinhos nos mostrou que é possível.

Artista amazonense assina vinheta da Copa do Mundo na Globo

Artista Amazonense Laura Athayde assina vinheta especial da Copa do Mundo na TV Globo

Os intervalos comerciais da TV Globo ganharam o traço, as cores e a identidade da região Norte durante a cobertura da Copa do Mundo. A artista, ilustradora e quadrinista amazonense Laura Athayde é a responsável pela criação de uma das novas vinhetas especiais do famoso “plim-plim”, exibidas nacionalmente nos blocos de transição dos jogos da Seleção Brasileira.

A ilustração, desenvolvida originalmente por Athayde, passou por um processo de animação para ganhar as telas. A proposta conceitual da obra é retratar com fidelidade e orgulho o jeito tipicamente nortista de torcer, celebrar e vivenciar o maior evento de futebol do planeta, levando as particularidades culturais da Amazônia para milhões de telespectadores em todo o país.

 

A iniciativa da emissora faz parte de uma série de interações artísticas que convidam criadores de diferentes regiões para imprimir suas visões locais sobre a identidade nacional. 

A participação de Laura Athayde na principal janela de audiência da televisão brasileira coroa um momento de forte consolidação de sua carreira e, simultaneamente, serve como vitrine para a potência das artes visuais e dos quadrinhos produzidos no Amazonas. Reconhecida por suas narrativas sensíveis e traço marcante, a autora agora expande seu alcance ao conectar a estética regional com o grande público da TV aberta.

 

Assim que chegou o convite, eu soube que queria representar uma das minhas memórias mais queridas, que era esse costume de enfeitar a rua para a Copa. Eu fui criada na casa da minha avó, no Centro, e durante a minha infância isso era muito forte. Então, eu comecei a pesquisar sobre essa tradição e acabei conhecendo um pouco mais também sobre as celebrações no interior da Amazônia, em que as famílias e amigos se reúnem de barco para assistir os jogos juntos.“, conta Laura. 

Para o cenário local, esse destaque reforça a efervescência de uma geração de quadrinistas e ilustradores amazonenses que têm quebrado as barreiras do isolamento geográfico, alcançando postos de destaque em grandes mídias, agências e no mercado editorial de prestígio nacional.

A vinheta completa pode ser assistida no perfil do instagram da artista.

Projeto Quadrinhos Sateré retoma atividades e prepara coletânea

Projeto Quadrinhos Sateré retoma atividades em junho para finalizar histórias e lançar coletânea inédita

O Projeto Quadrinhos Sateré, primeiro curso de roteiro de quadrinhos exclusivo para crianças e adolescentes indígenas do Brasil, está de volta. As atividades serão retomadas no dia 6 de junho de 2026, às 18h, na comunidade urbana Waikiru, no bairro Redenção, em Manaus. O retorno do projeto foi viabilizado pelo edital PNAB (Política Nacional Aldir Blanc) do Governo Federal e selecionado pela Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Amazonas SEC, que garantiu o financiamento para a continuidade das ações.

Na nova fase, os jovens Sateré-Mawé retomaram as aulas para finalizar as histórias iniciadas na primeira etapa do projeto, que ocorreu em 2023 com apoio da Fundação Municipal de Cultura de Manaus MANAUSCULT. O objetivo principal é produzir e publicar uma coletânea reunindo oito narrativas em quadrinhos criadas pelos próprios alunos, com previsão de lançamento para outubro de 2026.

Ao longo de dois meses e meio, os participantes — com idades entre 8 e 18 anos — terão aulas teóricas e práticas de roteiro, sempre orientadas pela equipe do projeto. As histórias serão ilustradas pela quadrinista profissional Malika Dahil, respeitando o traço e a visão de cada jovem autor.

Entre as narrativas previstas na coletânea estão lendas ancestrais, como A Criação da Noite, escrita por Israel Hukat’i (16 anos) a partir de relatos de seu avô, e histórias de empoderamento feminino e conscientização ambiental, como Moiara (Mayara Sateré, 15 anos) e Iamã e Ahiang̃ (Eliakim Cruz, 12 anos), que aborda as queimadas na Amazônia.

Estamos muito felizes em poder retomar esse trabalho. Não é apenas um curso de quadrinhos — é um resgate de memórias, de língua, de pertencimento a a realização do sonho das crianças de verem suas histórias publicadas.” — Evaldo Vasconcelos, idealizador do projeto e professor de roteiro.

O Projeto Quadrinhos Sateré nasceu de uma troca entre a pedagoga Leilane Sateré e o professor de narrativa gráfica Evaldo Vasconcelos: ele aprendeu um pouco sobre a cosmologia do povo Sateré-Mawé e, em contrapartida, ministrou aulas de quadrinhos para a comunidade. A iniciativa enfrenta uma lacuna histórica — por séculos, as histórias indígenas foram contadas exclusivamente por não-indígenas.

Quando a gente consegue trazer um projeto que fomenta a cultura indígena com a cultura não-indígena, acreditamos que estamos fazendo o nosso papel enquanto professor. Essas crianças estão mostrando quem somos, o que acreditamos e o que faz parte da nossa essência.” — Leilane Sateré.

 

Confira mais sobre o projeto no perfil deles aqui.

Circuito Amazônico de Quadrinhos vence o 42º Troféu Angelo Agostini

Circuito Amazônico de Quadrinhos vence o prestigiado prêmio nacional Jayme Cortez no 42º Troféu Angelo Agostini

Pela primeira vez na história da premiação, uma iniciativa da Região Norte que integra cinco estados da Amazônia recebe a maior honraria de fomento à cultura de HQs no Brasil. A primeira edição do Circuito Amazônico de Quadrinhos foi anunciado como o grande vencedor do Prêmio Jayme Cortez na 42ª edição do Troféu Angelo Agostini, uma das premiações mais tradicionais e longevas do universo das histórias em quadrinhos no Brasil. 

O anúncio oficial foi realizado hoje por meio de uma transmissão ao vivo que reuniu a comunidade do quadrinho nacional. A conquista consagra o Circuito Amazônico de Quadrinhos como uma iniciativa de relevância nacional na descentralização e no fortalecimento da cultura pop e editorial no país.

O Circuito Amazônico de Quadrinhos teve sua primeira edição em 2025 e é um evento itinerante colaborativo gratuito que conecta e fortalece a produção de histórias em quadrinhos do Norte do Brasil. O projeto integra grandes programações, oficinas e feiras de artistas em cinco estados da região. Em 2025, marcou presença em Manaus (AM), Belém (PA), Boa Vista (RR), Macapá (AP) e Palmas (TO). Já em 2026, a cidade de Parintins (AM) se juntou ao Circuito.

O que é o Prêmio Jayme Cortez

Diferente das categorias voltadas a lançamentos editoriais e específicos, a categoria Prêmio Jayme Cortez possui um caráter institucional e honorífico de altíssimo prestígio. Ele é destinado exclusivamente a reconhecer pessoas, obras ou instituições que tenham oferecido destaque, apoio e fomento a contribuições fundamentais para a produção, difusão e valorização do quadrinho nacional ao longo do ano.

O reconhecimento do Troféu Ângelo Agostini chancela o Circuito Amazônico de Quadrinhos não apenas como um evento regional, mas como um polo indispensável de resistência, formação de novos leitores e vitrine para os artistas do Norte do país. A premiação destaca o impacto social e cultural do Circuito, que atua diretamente na quebra de barreiras geográficas e econômicas que historicamente isolam a produção visual e literária da Amazônia dos grandes eixos editoriais do Sudeste.

A importância da colaboração regional 

A conquista reflete o esforço conjunto de uma rede de criados que decidiram transformar a realidade local. Andrei Miralha, organizador da Semana do Quadrinho Nacional do Pará e um dos idealizadores do Circuito, destaca o ineditismo da premiação: “Recebemos esse prêmio com muito orgulho e alegria, pois pela primeira vez um evento nortista recebe uma premiação como essa. O Circuito tem uma característica inédita no país por abranger cinco estados do Norte. É um evento organizado por quadrinistas para quadrinistas, com o objetivo de valorizar a produção autoral e dar visibilidade à Amazônia. Nossa intenção era colocar o Norte na rota nacional. Acho que conseguimos!”

Esse sentimento de conexão com a identidade local é compartilhado por Evaldo Vasconcelos, organizador da Semana do Quadrinho Nacional de Manaus e também idealizador do Circuito: “Esse reconhecimento é fruto do talento gigantesco dos artistas do Norte e do apoio fundamental de toda a cena de quadrinhos. Estamos mostrando para o país a Amazônia contada pelos próprios nortistas!”, celebra. 

“Mairiwara Peúa”: Exposição de Tai debate a Encantaria em Palmas

Mairiwara Peúa: Exposição de Tai debate a Encantaria em Palmas

O campus do Instituto Federal do Tocantins (IFTO), em Palmas, recebeu a exposição “Mairiwara Peúa”, da artista, ilustradora e roteirista paraense Tai. A mostra integrou a programação da Feira Teui durante a etapa tocantinense do Circuito Amazônico de Quadrinhos, realizada nos dias 24 e 25 de abril de 2026. A ação foi viabilizada por meio do projeto Cultura em Movimento, promovido pelo Sesc Tocantins.

A exposição propõe uma imersão na Encantaria Amazônica, trazendo para o centro do debate a resistência das entidades que habitam os territórios muito antes da presença humana e que existem acima dos conceitos tradicionais de bem e mal.

A narrativa visual de Tai funciona como uma lente crítica sobre o espaço urbano contemporâneo. Diante de um modelo de desenvolvimento predatório e eurocêntrico que desmata e fragmenta a biodiversidade regional, a obra demonstra como os Encantados seguem resistindo e ocupando os asfaltos, canais, igarapés e florestas das cidades amazônicas.

A série Mairiwara Peúa é uma lente que une fotografias de Mairi, nome ancestral reivindicado pelos povos indígenas que resistem na cidade de Belém, e de territórios que compõem a ancestralidade da artista, conectados pelos rios parawaras.

O diferencial técnico e conceitual da exposição esteve na mistura de linguagens. Tai utilizou fotografias de cenários urbanos e naturais de sua ancestralidade e, por meio da ilustração digital, revelou as figuras dos Encantados integradas às paisagens. A proposta estética busca mostrar o processo de apagamento colonial que, ao longo dos séculos, distanciou a percepção humana e espiritual dessas presenças que nunca deixaram de acompanhar o cotidiano da região.

 “Mairiwara Peúa” traz a capacidade de reconectar o público urbano com as raízes cosmológicas da Amazônia através da arte contemporânea. Ao dar forma visual aos seres invisibilizados pela cidade, a exposição convida o visitante a desacelerar a visão predatória para voltar a sentir e reconhecer a ancestralidade que sempre pulsou nos territórios nortistas.

3º Prêmio Mapinguari de Quadrinhos anuncia vencedores

3º Prêmio Mapinguari de Quadrinhos
anuncia vencedores

Em uma noite dedicada à celebração da identidade regional e da narrativa gráfica, foram revelados no último sábado (09/05) os vencedores da 3ª edição do Prêmio Mapinguari de Quadrinhos. A cerimônia, transmitida ao vivo pelo canal do YouTube do Norte em Quadrinhos, atingiu marcas históricas: foram mais de 120 inscrições, englobando 40 produções e a participação de cerca de 100 artistas vindos de todos os estados da Região Norte. 

A premiação deste ano contou com a identidade visual assinada pelo artista, designer e quadrinista amazonense Dylan Ranna. O mesacast de anúncio foi conduzida por Sâmela Hidalgo, idealizadora do Norte em Quadrinhos, e Luiz Andrade, produtor do prêmio, que celebraram a diversidade e a qualidade técnica das obras submetidas.

A grande vencedora da noite foi a obra “A Batalha de Itacoatiara” (Black Eye Estúdios), que conquistou o prêmio de Melhor Quadrinho, além das categorias de Melhor Desenhista (Romahs Mascarenhas) e Melhor Roteirista (Emerson Medina).

A difícil missão de selecionar os vencedores entre tantas produções de alto nível ficou a cargo de um júri de especialistas: a pesquisadora paraense Fabiana Gillet, a editora pernambucana Dandara Palankof, o editor cearense Chico Oliveira, o editor paulista Guilherme Kroll e o macapaense Gian Danton, reconhecido como Mestre do Quadrinho Nacional.

Lista Oficial de Vencedores – 3º Prêmio Mapinguari:

  • Melhor Quadrinho: A Batalha de Itacoatiara (Black Eye Estúdios), por Romahs Mascarenhas, Emerson Medina e Tiêe Santos.
  • Melhor Roteirista: Emerson Medina (A Batalha de Itacoatiara).
  • Melhor Desenhista: Romahs Mascarenhas (A Batalha de Itacoatiara).
  • Melhor Arte-finalista: Leonardo Dressant (A Batalha nas Sombras).
  • Melhor Colorista: Raquel Teixeira (Heranças).
  • Melhor Webtira ou Webquadrinho: Meio Período, de Icehito.
  • Melhor Subproduto ou Adaptação de HQ: Biblioteca de Zines.
“Alcançar todos os estados da Região Norte e mobilizar uma centena de artistas mostra que o Prêmio Mapinguari cumpre seu papel de descentralizar a produção nacional e dar voz aos criadores da Amazônia”, afirma Sâmela Hidalgo, uma das organizadoras do prêmio.
 
Criado em 2022 e organizado pelo portal Mapingua Nerd, o prêmio busca valorizar e dar visibilidade à produção de HQs no Norte do país, premiando o esforço de artistas independentes e editoras que narram as pluralidades da região.