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Aqui você confere os últimos posts do Norte em Quadrinhos.

Requadros: A potência das nossas histórias

A potência das nossas histórias

Ao analisar as histórias em quadrinhos que ganharam destaque nos últimos anos no cenário nacional, é possível encontrar algumas caracteríscas comuns entre elas. Um das principais é uma tendência a expor a pessoalidade dos autores.

Essas obras são autobiográficas, autoficções, graphic memoir (termo que pegou recentemente no mercado dos EUA e na Europa). Mas também podem ser representativas de uma etnia ou grupo social com o qual o autor se identifica.

Exemplos não faltam: Mukanda Tiodora, Filosofia do mamilo, Quando nasce a autoestima?, Em ti me vejo.

Entre os quadrinhos da região Norte que se destacam, essa tendência se confirma. Há obras que abordam retomada da ancestralidade, afirmação de um passado histórico apagado ou o enaltecimento da cultura local.

“A Última Flecha” é uma narrativa de vingança que passeia por períodos históricos importantes para o Amazonas. “Brega Story” constrói sua narrativa em meio ao cenário do brega paraense. “Quase tudo são flores” fala de autoconhecimento a partir da ligação com uma figura importante para a autora.

A característica se repete em obras de gêneros e formatos variados como histórias de humor (Super Vovô) ou tirinhas publicadas nas redes sociais.

O quadrinho nortista parece ter encontrado, de forma orgânica, sua principal vertente. Uma fonte de histórias potentes que vem rendendo excelentes obras.

Temos inúmeras histórias que o Brasil, e a própria região Norte, desconhece. Essas narrativas podem e devem ser contadas e recontadas, servindo como uma lente que nos permite olhar para o passado, marcando uma posição firme sobre o que queremos para o nosso futuro enquanto amazônidas.

Ajuricaba, o revoltoso, ainda é visto como uma “lenda” por muitos nortistas. A HQ, semifinalista do Jabuti, de mesmo nome, ajudou a trazer o líder indígena de volta ao debate público como uma figura importante de nossa história.

Antes de falar sobre qualquer coisa, precisamos falar sobre o essencial.

Longe de mim querer ditar a tendência de uma produção tão diversa quanto a do cenário nortista. Acho apenas que essa atual fase de autodescoberta é essencial para todos nós, como artistas e como amazônidas.

Ela deixa bem claro algo que já sabíamos: nossa maior força é a coletividade, as diferenças que exaltam nossa diversidade e as qualidades que dividimos.

Podemos falar sobre tudo, mas só artistas do Norte poderiam ter feito “Ajuricaba”, “Onde habita o medo” ou “Heranças”.

Requadros: O balanço de um ano histórico

O balanço de um ano histórico

O ano de 2025 deixará algumas marcas.

Este ano o Norte em Quadrinhos testemunhou acontecimentos importantes para os artistas da região Norte. Parte desses acontecimentos teve envolvimento direto da equipe que forma a organização desse movimento.

A primeira edição do Circuito Amazônico de Quadrinhos teve participação da Sâmela Hidalgo. Vimos surgir um ramo importante para o fortalecimento do cenário com o Circuito e que já anunciou uma expansão para a segunda edição.

Em outros eventos pelo país houve intensa participação Nortista, como na Bienal de Quadrinhos de Curitiba. A exceção foi a CCXP, que a cada ano se torna um investimento ainda maior para os nortistas e que nem sempre traz o retorno esperado.

Foi ano de COP na Amazônia e também de movimentação política. O coletivo Iukytáias produziu, em parceria com o Instituto Mapinguari e o Norte em Quadrinhos, a HQ-denúncia “A Voz da Foz”, sobre a exploração de petróleo na foz do rio Amazonas, distribuída gratuitamente em diversos eventos pela região, inclusive durante a COP 30.

O engenheiro ambiental e mestre em ecologia Yago Santos, nosso colunista, fez uma cobertura exclusiva do evento. Além disso, diversos artistas da região participaram de produções e/ou manifestações durante a COP 30.

Este ano também foi um marco para os nortistas em termos de premiações.

No 37º HQMIX foram 14 indicações e 4 troféus para a região nas categorias Novo Talento Roteirista – Tai, Melhor Publicação Independente de Edição Única, Melhor Publicação de Aventura/Terror/Fantasia e Melhor Exposição. Foram mais de 30 edições do HQMIX sem a participação de nortistas, o que torna esta ainda mais simbólica.

“Maramunhã: na Terra do Waraná” e “Onde Habita o Medo” concorrem também ao Prêmio Angelo Agostini.

O Prêmio Mapinguari de Quadrinhos retornou para a sua segunda edição, dessa vez com a produção do Norte em Quadrinhos, que promete continuar a premiação anualmente.

O cenário parece ter nos notado, embora alguns ainda não tenham compreendido nossas pautas.

É clara a mudança. Parte dela é resultado do movimento de ocupação que nós iniciamos, mas também há um retorno consciente do mercado editorial formal e dos diversos grupos que formam o quadrinho brasileiro.

Mas como eu disse, alguns parecem não ter compreendido ainda nossas pautas. Talvez devessem nos escutar mais, assim não reproduziriam preconceitos elementares.

Tenho certeza que não publicariam livros sobre nossa região com a visão colonialista de estrangeiros e sem a participação de artistas nortistas.

Requadros: Um cenário de memória curta e seletiva

Um cenário de memória curta e seletiva

O cenário de produção de HQs no Brasil é imenso e diverso, mas concentrado num eixo sudestino, como já sabemos bem.

Ainda assim, às vezes algo rompe a bolha, quase sempre por acaso. Foi o que aconteceu com o fanzine Hyper Comix, criado por Vicente Cardoso e Jucylande Jr. em Manaus nos anos 1990.

As edições eram enviadas para o editor da revista Animax, apenas para divulgação em uma seção do periódico, mas se tornou um produto regular, publicado pela editora Magnum e com tiragem inicial de 40 mil exemplares.

De teor humorístico, a revista fazia sátiras com personagens dos animes e mangás que faziam sucesso na época como Cavaleiros do Zodíaco e Sailor Moon.

Oito números da revista foram publicados em 1997 e seis em 1998. Artistas como Érica Awano (Holy Avenger), Denise Akemi Nakama (Tsunami) e PH Marcondes (Combo Rangers) passaram pelo título.

Numa época em que o modelo de negócio da banca de jornal ainda era sustentável, uma produção essencialmente nortista recebeu distribuição nacional e se tornou um marco para a produção brasileira.

Vicente se tornou um quadrinista conhecido no cenário regional. Chegou a criar outros personagens e publicar em jornais locais, mas a revista Hyper Comix não catapultou sua carreira como artista para o resto do país.

Só recentemente, Jucylande Jr. e Ademar Vieira, ambos envolvidos com a Hyper, ganharam projeção nacional, mas por conta de trabalhos como Ajuricaba, obra indicada ao HQMIX e ao Jabuti.

Como esses autores, cujo trabalho marcou uma geração de leitores e o próprio mercado brasileiro, não são reconhecidos, sequer pelo fator nostálgico tão celebrado atualmente?

Esses autores não são convidados para eventos de quadrinhos em São Paulo, não há exposições sobre o seu trabalho num festival e menos ainda convites para novas publicações. Eles foram esquecidos pelo cenário para o qual contribuíram tanto. Mas por quê?

Não vou me arriscar a responder esse pergunta, já que questões similares foram amplamente discutidas por mim em outros textos. Nem irei citar casos de autores cuja produção tem sido melhor tratada em nosso mercado, eles são vários e podem ser encontrados facilmente.

O ponto central é que há uma diferença clara, que nada tem a ver com a qualidade das produções, mas com a conveniência e a vontade de editores, jornalistas, curadores de eventos etc.

Proteger a memória acerca de algo é importante e motivo de debate no mundo inteiro. Monumentos são erguidos em homenagem a vítimas de atentados ou guerras, por exemplo. A memória do mercado brasileiro de quadrinhos pode ser preservada em livros, documentários e sites, mas a Hyper Comix e os autores amazonenses que furaram a bolha fariam parte disso?

Não podemos depender da vontade (ou a falta) de alguns poucos atores desse imenso e diverso cenário.

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