O cenário de produção de HQs no Brasil é imenso e diverso, mas concentrado num eixo sudestino, como já sabemos bem.
Ainda assim, às vezes algo rompe a bolha, quase sempre por acaso. Foi o que aconteceu com o fanzine Hyper Comix, criado por Vicente Cardoso e Jucylande Jr. em Manaus nos anos 1990.
As edições eram enviadas para o editor da revista Animax, apenas para divulgação em uma seção do periódico, mas se tornou um produto regular, publicado pela editora Magnum e com tiragem inicial de 40 mil exemplares.
De teor humorístico, a revista fazia sátiras com personagens dos animes e mangás que faziam sucesso na época como Cavaleiros do Zodíaco e Sailor Moon.
Oito números da revista foram publicados em 1997 e seis em 1998. Artistas como Érica Awano (Holy Avenger), Denise Akemi Nakama (Tsunami) e PH Marcondes (Combo Rangers) passaram pelo título.
Numa época em que o modelo de negócio da banca de jornal ainda era sustentável, uma produção essencialmente nortista recebeu distribuição nacional e se tornou um marco para a produção brasileira.
Vicente se tornou um quadrinista conhecido no cenário regional. Chegou a criar outros personagens e publicar em jornais locais, mas a revista Hyper Comix não catapultou sua carreira como artista para o resto do país.
Só recentemente, Jucylande Jr. e Ademar Vieira, ambos envolvidos com a Hyper, ganharam projeção nacional, mas por conta de trabalhos como Ajuricaba, obra indicada ao HQMIX e ao Jabuti.
Como esses autores, cujo trabalho marcou uma geração de leitores e o próprio mercado brasileiro, não são reconhecidos, sequer pelo fator nostálgico tão celebrado atualmente?
Esses autores não são convidados para eventos de quadrinhos em São Paulo, não há exposições sobre o seu trabalho num festival e menos ainda convites para novas publicações. Eles foram esquecidos pelo cenário para o qual contribuíram tanto. Mas por quê?
Não vou me arriscar a responder esse pergunta, já que questões similares foram amplamente discutidas por mim em outros textos. Nem irei citar casos de autores cuja produção tem sido melhor tratada em nosso mercado, eles são vários e podem ser encontrados facilmente.
O ponto central é que há uma diferença clara, que nada tem a ver com a qualidade das produções, mas com a conveniência e a vontade de editores, jornalistas, curadores de eventos etc.
Proteger a memória acerca de algo é importante e motivo de debate no mundo inteiro. Monumentos são erguidos em homenagem a vítimas de atentados ou guerras, por exemplo. A memória do mercado brasileiro de quadrinhos pode ser preservada em livros, documentários e sites, mas a Hyper Comix e os autores amazonenses que furaram a bolha fariam parte disso?
Não podemos depender da vontade (ou a falta) de alguns poucos atores desse imenso e diverso cenário.
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